A escultura, até então definida por sua materialidade e presença física, passa a ser entendida como parte de um sistema mais complexo — um campo de relações que envolve espaço, arquitetura, paisagem e linguagem. A obra deixa de ser apenas objeto e passa a ser também contexto, deslocamento e articulação.
Essa mudança foi decisiva para a arte contemporânea.
No entanto agora, mais de quatro décadas depois, talvez seja necessário dar um passo além.
Como artista visual e empresária do setor de comunicação e tecnologia, acabo tentando unir um pouco de arte e a tecnologia animando algumas obras de brincadeira com a IA. E foi assim inicialmente brincando e depois idealizando um projeto onde todas as obras se expandem no meio digital que notei uma profunda relação entre toda essa experiência com a teoria do campo ampliado.
Se o campo ampliado deslocou a arte para além do objeto físico, o que acontece quando esse campo atravessa também o ambiente digital?
Hoje, assistimos a um novo tipo de expansão. Não se trata apenas de obras que ocupam o espaço ou dialogam com o entorno, mas de obras que se desdobram em diferentes camadas de existência. Uma pintura em tela por exemplo, ou até mesmo uma escultura podem ganhar movimento por meio da animação. Uma imagem fixa pode se expandir em realidade aumentada. Uma obra física pode continuar a existir — e a se transformar — em um ambiente digital acessado por telas.
Não é mais apenas o espaço que se amplia.
É o próprio regime de existência da obra.
Nesse contexto, proponho pensar em um campo expandido digital — uma continuidade possível da formulação de Krauss, agora atravessada pela tecnologia. A obra já não se limita ao que está presente diante do espectador, mas se estende para além dele, criando uma experiência que é simultaneamente material e imaterial.
Essa expansão, no entanto, não é apenas técnica.
Ela é conceitual.
Quando uma obra física ganha uma camada digital, não estamos apenas adicionando um recurso. Estamos criando uma nova instância de leitura, uma nova possibilidade de experiência, uma outra forma de relação com o espectador. A obra deixa de ser única em sua forma para se tornar múltipla em suas manifestações.
Mas essa multiplicidade exige cuidado.
Nem toda transposição para o digital gera expansão. Em muitos casos, o que se vê é apenas reprodução ou efeito. A verdadeira expansão acontece quando o desdobramento digital acrescenta sentido — quando ele não repete a obra, mas a tensiona, a amplia, a reinterpreta.

O desafio, portanto, não é tecnológico. É artístico.
Se, no campo ampliado de Krauss, a arte se libertou das categorias tradicionais, no contexto contemporâneo ela se vê diante de uma nova possibilidade: existir simultaneamente em diferentes dimensões, sem perder sua integridade conceitual.
A questão que se coloca não é mais onde a obra está.
Mas como ela se desdobra.
E nesse ponto — entre presença e projeção, entre matéria e código — a arte continua a se reinventar.